Fala sério! Nossos políticos são o limbo do pior que existe entre a raça humana. Né não? Esperar chuvas para resolver o abastecimento de 101814 1649 Planetaguas1 Planeta Água sem água para a populaçãoágua em uma cidade e adjacências onde há 20 milhões de pessoas é de amargar. Quando moramos em Sorocaba houve um acidente (estourou carcomido pelo tempo) com uma adutora (um cano véio por onde a água vinha da represa de Itupararanga – represa entre Votorantim e Piedade, completamente abandonado entre morros e savanas) e a cidade (600 mil habitantes) ficou sem água por cerca de dez dias. Naquela época pensei na precariedade da coisa, na falta de estrutura adequada, na incompetência. Esses caras nunca jogaram SimCity, na melhor das hipóteses. Para ser prefeito de qualquer cidade, mesmo as de mil pessoas, um cara deveria ficar jogando SimCity um ano antes de assumir. Para uma cidade como São Paulo, pelo menos uns dez anos antes. Claro que há formações melhores que essa e necessárias, mas um imbecil desses precisa, ao menos, ter alguma noção de como se desenvolve a estrutura desses lugares. E isso o SimCity possibilita.

Nossa quanta dó de meu antigo colega de Ginásio Vocacional, o Guilherme Arantes 101814 1649 Planetaguas2 Planeta Água sem água para a populaçãoe aquela utopia linda dele com o tal Planeta Água. Pois sim…

Agora, governador, secretários, presidente da Sabesp, mídia (começando pela rede Globo), igreja, família e escola, todos unidos num só louvor: Deus, mande chuvas por favor. Que absurdo! Se fosse eu, não mandava. Imagine Deus, então, com aquelas manias de nos ensinar alguma coisa, sempre.

Caspite! Num é de chuva que nós precisamos para resolver problemas de abastecimento de água. Isso é, no mínimo, desdenhar do Criador. Ceis lembram do primeiro ano primário? Fusão, Solidificação, Evaporação, condensação, sublimação (veja lá o que ensina o professor Ademir), nossa quanto esforço pra memorizar palavras tão complicadas, pra que? Pros caras virem agora me tratar como se nem primário eu houvesse feito. Meu, manda esses caras irem plantar batatas, po! Certamente morreriam de fome, essa corja! Por isso é que eles não querem nem ouvir falar em currículo escolar. Por eles, currículo seria um saco vazio, oco, se possível sem ar dentro. Quanto menos souberem, melhor.

101814 1649 Planetaguas3 Planeta Água sem água para a populaçãoÁgua há aos montes. A água, assim como a terra, não tem como deixar o planeta. Nem o benefício da morte ela tem. Está aqui e ficará até o final dos tempos. Você e eu passaremos mas ela não. Aliás, dizem que a maior reserva de água do planeta está bem abaixo de nós, paulistas, sem falar nos mares e rios que dispomos. Dizem lá na padaria que um dos próximos projetos do PT será poluir os mares. Água limpa é coisa das elites, segundo eles. Do outro lado, membros dos partidos antagônicos não fazem nada para despoluir os rios para que os mais pobres tenham onde morar, segundo dizem a boca pequena.

Não se trata desse ou daquele político. Todos eles estão irmanados, não importa o partido, em certo sentido. O que vale no meio político é, “num faiz que eu também num faço”. Embora, em minha opinião, depois da safadeza, está presente em cada um desses caras, independentemente de ter ou não algum diploma (sic), a mais elevada incompetência da paroquia, digo, da política. Às vezes eu confundo a coluna satânica. Já contei pro ceis, várias vezes, a história de quando fui convidado para ser síndico do prédio onde morávamos lá na Cardoso de Almeida, nas Perdizes. Cara, pelo menos naquela oportunidade, Deus me iluminou e tive a sensatez de não aceitar. Era completamente incompetente para tal função. Imagine, então, governar cidades e estados como os “São Paulo”. Se eu fosse governador de minha cidade, a primeira coisa que faria não seria construir uma rede de águas competente e adequada, mas trocar o nome dela para Corinthians. Entendeu porque eu não sou a pessoa certa? Adoro minha cidade, apesar do nome horroroso dela. Fazer o que, nada é perfeito nesse mundo inventado por Deus. Se fosse Palmeiras ou Santos seria muito pior.

A parte da imperfeição Ele deixou por nossa conta e nós nunca o desapontamos. Para caprichar, criamos a classe política e de dois em dois anos vamos lá sufragar e hipotecar apoio a essas quadrilhas que irão nos roubar, mentir para nós, providenciar insegurança, sujeira, precariedade nos serviços de saúde, educação, transportes e o resto que você está careca de saber. Vai lá meu, vai votar pro próximo presidente (a) te ferrar de tudo que é jeito.

E água que é bom, nóis num reve. Mas temos de montão.

morcego 12 150x150 Planeta Água sem água para a população

Share this:
email Planeta Água sem água para a população su Planeta Água sem água para a população digg Planeta Água sem água para a população fb Planeta Água sem água para a população twitter Planeta Água sem água para a população

tt twitter Planeta Água sem água para a população Tweet This Post

{ 0 comments }

Templos de pedras

by Lou Mello on 7 de October de 2014 · Comments

in apocalípticas

100714 0311 Templosdepe1 Templos de pedras

 

“Chegarão dias, nos quais,

de tudo o que vedes aqui

não será deixada pedra sobre pedra

que não seja derrubada”.

Jesus de Nazaré em Lucas 21: 6

Hoje à tarde, falei com o Pr. Neto ao telefone e reiterei minha disposição em ajuda-lo no que precisar. Durante a via sacra que caminhamos, desde o ano passado, ele foi um dos nossos ajudadores destacados. Não ouso pensar em retribuir, pois não creio ser capaz e/ou ter tempo para fazê-lo à altura de sua generosidade. Ele está construindo o templo da igreja que dirige, junto com sua pequena congregação, em um terreno de não mais de dez metros de frente por quarenta ou cinquenta de fundo. Será pouco mais de um armazém, com um pequeno praticável para os instrumentos e um púlpito bem simples na frente dele, onde o Pr. Neto continuará fazendo seus sermões simples e práticos para sua congregação sentada em cadeiras plásticas brancas. Estou disposto a fazer qualquer coisa que ele me peça e imagino ser útil para conversar com o pessoal, contribuir para o crescimento, ouvir muito, abraçar o angustiado, alegrar o triste e dividir com o necessitado. Todo esse exercício, inclusive a construção poderá ser enriquecedora para aquelas pessoas e ficarei feliz de ter contribuído de alguma maneira.

Enquanto isso, o tal Bispo ergue à custa de milhares de dinheiros um templo ao denomina “Templo de Salomão”. Imenso, à semelhança do templo derrubado de Jerusalém, que fora reconstruído por Salomão, em seus grandes dias. Olhando de fora, é bem provável que o “templo de Salomão” do bispo seja muito mais vistoso do que o original. Por dentro, é capaz de abrigar milhares de pessoas a cada reunião. Ele fez o “The Best”, mas há muito outros de grandes proporções por aí, reunindo multidões para cultuar, sabe-se lá quem.

Mas se estas palavras acima, ditas pelo mestre (rabi) de Nazaré, há mais de dois mil anos, estiverem se materializando em nossos dias, estaremos todos na contramão delas. Nesse caso, seria mais oportuno e sensato desconstruir ao invés de construir, se não me engano. Não sei porque nós nunca acreditamos na possibilidade disso acontecer conosco. Achamos que será depois de nós ou mesmo, bem depois.

Nos últimos dias, exacerbaram-se os acontecimentos relacionados à mais uma eleição para a presidência em nosso país. Enquanto pessoal trocava elogios e farpas pra lá e pra cá, causou-me estranheza o envolvimento dos beneditos cristãos em todo esse processo. Um dos candidatos, em verdade, uma senhora, apresenta-se como cristã evangélica (talvez seja mesmo, não investiguei a fundo) e essa “qualidade” parece ter embriagado os que sentem-se evangélicos nesses dias. Entendo perfeitamente, Jesus referiu-se à perseguição que viria a todos os seus seguidores, causando inclusive o esfriamento da fé de muitos. Tenho como líquido e certo que todo esse engajamento político, com imensos depósitos em favor de um ser humano governante que acreditam ser o salvador de evangélicos perseguidos pelos ímpios e aplacador de nossas dores, seja sinal evidente desse esfriamento da fé.

Eram todos fieis esperançosos da providência divina em todos os sentidos e, sutilmente, provavelmente sem se darem conta, estão depositando suas esperanças em outro ser humano, como qualquer um de nós, como se Deus fosse. Ah, enfim nossa liberdade estará preservada, de novo. Teremos paz, os marginais deixarão de roubar, matar e abraçarão suas bíblias pregando em praça pública o evangelho com suas boas novas. Os serviços públicos de saúde, educação e transportes serão transformados por milagres em condutores de saúde perfeita, sabedoria e deslocamentos levitáveis. Recuperaremos, então, nosso orgulho e não precisaremos mais esconder nossa identidade evangélica atrás de subterfúgios ou declarações do tipo: “Olha, eu não sou evangélico, viu?” Santa imbecilidade. Mais provável ser a tal história dos cegos sendo guiados por outro cego. Não cairão todos no abismo?

Não quero fazer parte de uma igreja, como fiz em boa parte de minha vida, porque esse tempo já passou para mim. Quero reter o que puder guardar o que conseguir da Bíblia em minha mente (coração) e ações. Fazer meus atos devocionais onde estiver, no meu quarto, nas ruas ou em alguma cela de uma dessas prisões infames, como está previsto pelo profeta nazareno até que a morte venha me buscar. Se pudesse sugerir algo aos cristãos, e também às pessoas de outras seitas e religiões, diria que nosso lugar não é na construção de templos, tampouco na eleição de presidentes, governadores, etc. Mas o ideal seria estarmos proclamando como pudermos, nas ruas, o amor ágape de Deus até que tudo esteja consumado.

Reparem no mundo. O que lhes parece? Os acontecimentos lhes dizem alguma coisa? Guerras, países contra países, irmão contra irmão, filhos contra pais, homens versus mulheres e vice-versa, furações, terremotos, maremotos, orgias sexuais, homens e mulheres se batendo em arenas com transmissão direta de TV para nosso deleite, queda da moralidade, desequilíbrio climático, desarrumação ecológica e ambiental, que mais? Alguém, ou algum ser humano conseguirá parar isso? Claro que não. Ah, mas o mundo ainda durará milhares de ano. Afinal os cientistas ainda não conseguiram aprontar a máquina (Grande Colisor de Hádrons) que encontrará o bóson de Higgs e, muito provavelmente, explodirá o universo outra vez e começará tudo de novo, como deve ter acontecido outrora causando o tal Big Bang originando a todos nós.

Para mim tanto faz se será uma coisa, a outra ou as duas ao mesmo tempo. O fato é, a coisa está acontecendo e não sei se estamos fazendo as escolhas corretas. Com certeza o tempo para mim está curto demais para fazer experiências. Os sinais se evidenciam a todo instante, cada vez mais e prefiro me dedicar ao estudo da palavra, à meditação e às minhas orações. Quando der, participarei de uma reunião aqui ou acolá e no mais, trabalhar para salvar o quantos puder e pelo pão de cada dia, enquanto for possível e se permitirem. Salvo algum engano, claro.

morcego 12 150x150 Templos de pedras

OPs: Ainda estou precisando de uma cadeira de rodas para doar ao Lar Betel em São José dos Campos – SP

Share this:
email Templos de pedras su Templos de pedras digg Templos de pedras fb Templos de pedras twitter Templos de pedras

tt twitter Templos de pedras Tweet This Post

{ 0 comments }

 

092314 0048 1 O abandono da criança não abandonadapor: Ricardo Lopes*

em Tempo Presente

Resumo
Este artigo analisa a vulnerabilidade da criança no âmbito da família. Constrói o conceito de vulnerabilidade intrínseca, relacionado às características físicas e psicossociais dos diferentes sujeitos. Realiza uma crítica à educação e ao cuidado com a criança que se dá por meio de uma “violência de baixo teor”, em função de poder acarretar problemas psicológicos tornando-a mais vulnerável. Conclui que a educação da criança impõe um dever ético que se constitui num acolhimento e na consideração das razões da criança, mesmo para o caso de se negá-las.


Palavras-chave: vulnerabilidade, criança, cuidado.

Abstract
This article analyzes the vulnerability of the child in the family environment. It constructs the concept of intrinsic vulnerability, related to the physical and psychosocial characteristics of the different subjects. It criticizes education and child care using “low-level violence”, which may entail psychological problems for the child and future adult, making it more vulnerable. It concludes that the child’s condition and education impose an ethical duty to protect the child and consider his or her reasons, even if they are rejected.
Key-words: vulnerability, child, care.

Homenagem às crianças

Como é bom brincar!
Ou não fazer nada.
Assim como as crianças
que possuem todo o tempo do mundo.
Por isso, pra elas, o tempo é nada.
Assim como nada é tudo o que não lhes dá prazer.

Como é bom viver
tendo as crianças como mestras.
Ó Deus, livrai-me da doença de ser grande!
E de tudo querer saber e não saber de nada.

Da seriedade de uma brincadeira de criança
e da brincadeira de toda a minha seriedade.

De não saber sentir.
E, de ao sentir, querer saber o que sinto.
O quê e o quanto enquanto sinto,
de modo a não sentir
e nem saber.

Ó Deus, livrai-me da doença de saber!
Melhor a ignorância sábia da criança.

O presente trabalho pretende realizar uma análise do conceito de vulnerabilidade, aplicando-o a uma investigação da criança no âmbito familiar. Mais particularmente da criança pequena, de 0 a 6 ou 8 anos, período de formação de suas principais características psicológicas 1.
Pensamos, nesse caso, na vulnerabilidade intrínseca da criança, e não de uma criança que, em função de uma determinada situação ou circunstância de sua família, estaria vulnerável (vulnerabilidade extrínseca). Isso porque, independente da situação social em que uma criança se encontra, esta possui uma vulnerabilidade intrínseca derivada da condição mesma do ser da criança, dado sua fragilidade física, psicológica, bem como sua total dependência de um adulto que cuida dela (geralmente os pais).

1. Conceito de vulnerabilidade
Utilizando-se do conceito de vulnerabilidade, Robert Castel analisou o aspecto dinâmico dos processos de exclusão e inclusão, por meio de movimentos de vinculação e desvinculação, e não apenas de uma forma estática, o que muito contribui para a realização de uma análise da exclusão social, particularmente considerada num sentido amplo e não apenas estritamente econômica 2.
Analisando o processo de exclusão que se dá por meio de uma “metamorfose da questão social”, particularmente, a forma como esta é vista pela sociedade e pelo Estado, com vistas a intervir e, desse modo, dirimir problemas econômicos e políticos advindos da mesma, tendo como foco a França, Robert Castel desenvolveu o conceito de vulnerabilidade. O autor teve em vista uma identificação da forma como os trabalhadores estariam incluídos ou excluídos, em função de uma vinculação ou desvinculação aos mundos do trabalho e sócio-familiar.
Para Castel, a inserção que se dá no âmbito da esfera sócio-familiar “corresponde a vínculos familiares sólidos e estáveis, relações de amizade, coleguismo, companheirismo, vizinhança, que se deixam perceber na família, no time de futebol, no grupo religioso, nas festas da comunidade, no lazer” 3.
Já no âmbito do mundo do trabalho,

“(…) o processo de desenvolve entre uma inserção estável e regular que conjuga o binômio assalariamento (rendimentos) e proteção social, típica das sociedades de trabalho dos países centrais e uma condição de ruptura dos vínculos (desemprego crônico ou jovens que nunca conseguiram estabelecer sequer um vínculo precário). Exclusão neste âmbito é mais do que ocupar uma posição marginalizada no processo de produção e acumulação capitalista – e é a condição contemporânea de ser supérfluo e desnecessário. Entre uma situação e outra há inúmeras possibilidades de vulnerabilidade, precarização, instabilidade, irregularidade, desemprego recorrente, ocasional, cíclico, rendimentos decrescentes e informalidade” 4 (ibid).


Partindo de uma análise realizada por Robert Castel da exclusão social como um processo dinâmico que se realiza por meio de uma condição de vulnerabilidade propiciadora de um movimento de desvinculação de uma “zona de inserção” para uma “zona de exclusão”, tendo como “lócus” os mundos do trabalho e do ambiente sócio-familiar, Sarah Escorel realizou uma análise dos moradores de rua na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, em sua análise, Escorel acrescentou a estes mundos do trabalho e da família analisados por Castel os mundos da política (cidadania), cultural (valores simbólicos) e o âmbito da vida 5.
Sobre o aspecto da cidadania, Escorel considera que existe um “território de infra-cidadania” ocupado por certos grupos que se encontram numa condição de “impossibilidade de instituir uma regra de reciprocidade” 6. Esses grupos, observou esta autora, “são excluídos da atividade política (ou nela têm apenas um papel figurativo) porque estão privados de recursos de poder e pelo desencanto (senão aversão) que sentem em relação à política e aos políticos” 7.
Já em relação ao eixo cultural (simbólico), Sarah Escorel observa que uma trajetória de desvinculação pode

“(…) conduzir à experiência de não encontrar nenhum estatuto e nenhum reconhecimento nas representações sociais, ou só encontrá-las em negativo. São caminhos que podem envolver discriminação, estigmatização, criminalização, não-reconhecimento, indiferença, negação da identidade ou identidade negativa, conformismo, naturalização e banalização” 8.

1.1. Vulnerabilidade intrínseca (constitutiva) e vulnerabilidade circunstancial (social)
Para o caso de uma análise do ser humano em sua infância, na sua mais tenra idade, e para a análise das diferentes situações de vulnerabilidade em que este possa se encontrar, consideramos relevante a realização de uma discriminação entre uma vulnerabilidade intrínseca ou constitutiva, caracterizada por determinadas aspectos da condição humana que não podem ser mudados, ou cuja mudança somente pode se dar numa média ou longa duração; e uma vulnerabilidade situacional, derivada das circunstâncias ou da experiência histórica (situacional). Mesmo considerando que a própria constituição do ser humano enquanto tal, inclusive biologicamente, possua uma condicionalidade histórica.
Desse modo, características tais como a constituição física, psicológica e intelectual (em termos de capacidade intelectual em função do desenvolvimento da inteligência, bem como o conhecimento que é derivado da experiência) podem ser consideradas como intrínsecas; por outro lado, a condição social, pobreza, desemprego, falta de moradia, distúrbios familiares, etc., podem ser consideradas vulnerabilidades extrínsecas. Estas podem aumentar ou diminuir, fazendo com que alguém que possua alguma vulnerabilidade intrínseca (a criança, o idoso, a mulher, entre outros) se encontre numa situação ainda mais vulnerável do que se encontra, mas não constituí-lo enquanto tal.
Nesse sentido, deve-se considerar que uma coisa é estar incluído no mundo do trabalho, sob o ponto de vista estritamente econômico, e, ao mesmo tempo, ser afro-descendente, outra é ser afro-descendente, particularmente num país de tradição colonial e que tenha se utilizado do trabalho escravo de africanos e seus descendentes, bem como que, quando do fim deste último, não tenha realizado uma integração dos ex-escravos ao mundo do trabalho. E, ainda, independente disso, em função da própria permanência do racismo que se associava à idéia da exploração do trabalho escravo 9.
Considerando a existência de uma vulnerabilidade intrínseca e de uma vulnerabilidade situacional, muitas podem ser as combinações de modo a se estabelecer maior ou menor vulnerabilidade dos diferentes grupos sociais (e até mesmo das pessoas, consideradas individualmente), segundo a classe, o gênero, a faixa etária, entre outros aspectos. Devido a isso, consideramos que é importante a análise de diferentes formas e graus de vulnerabilidade.

1.2. Graus de vulnerabilidade
Para a realização de uma análise mais acurada do conceito de vulnerabilidade, bem como dos objetos que possam vir a serem investigados com este respectivo conceito, consideramos que é relevante o estabelecimento de graus de vulnerabilidade.  Além disso, devido a essa própria variação no grau de vulnerabilidade no âmbito das diferentes esferas da sociabilidade em geral (trabalho, social em geral, familiar, político, simbólico), que, pode-se dizer, é dada por maior ou menor (e, ainda melhor ou pior) vinculação/desvinculação do indivíduo no âmbito de cada uma dessas esferas, é possível a identificação de diferentes situações em que grupos e pessoas podem se encontrar.
Com efeito, pode-se ser intrinsecamente vulnerável (por exemplo, quando se é a criança, idoso, mulher, em diferentes casos e por diferentes motivos) e, de outro lado, encontrar-se incluído no âmbito das relações sociais de produção (por exemplo, pertencendo a uma família de classe média ou alta e dominante, com renda, patrimônio, etc.).
Por outro lado, um trabalhador que se encontra desempregado e, por isso, vivendo de expedientes “informais” para sobreviver, mas que, ao mesmo tempo, dada a sua qualificação profissional e as condições específicas do mercado de trabalho, faz parte do grupo dos desempregados, pode ser considerado como vulnerável, na medida em que se encontra excluído. Mais precisamente, este mesmo trabalhador pode ser considerado como vinculado (ou incluído de forma excludente), em relação à esfera das relações sociais de produção, particularmente na medida em que este: 1) estiver desempregado, mas, ao mesmo tempo permanecer “empregável” ou “não-empregável”; 2) exercer uma atividade “informal”, para sobrevier, que é mais ou menos necessária para a sociedade em geral; ou 3) possuir algum patrimônio ou renda (poupança, FGTS, etc.) que o permita (sobretudo se ele ainda for “empregável”) passar pelo período em que está desempregado sem uma queda significativa em seu “padrão de vida” e, de algum modo, poder se vincular a alguma forma de sociabilidade geral ou familiar.
Um “morador de rua” encontra-se numa situação de exclusão (extrema), desvinculado 10 e, desse modo, bastante vulnerável.  No entanto, ele será mais vulnerável se, ao invés de um adulto, ele for uma mulher, criança ou um idoso, dado o maior grau de vulnerabilidade intrínseca ou constitutiva destes últimos. Isso reforça a necessidade da consideração do conceito de vulnerabilidade intrínseca.

2. Criança – o mais vulnerável dos seres
A criança é portadora de uma vulnerabilidade intrínseca, particularmente em função de uma fragilidade física e psicológica. Mas, também de uma fragilidade cognitiva e política. Tais fragilidades apresentam-se de tal ordem e em tal grau que é possível dizer que a criança é, intrinsecamente, o mais vulnerável dos seres.
Pode-se argumentar que, numa idade muito avançada e, sobretudo, quando doente, o ser humano é tanto quanto ou mais vulnerável que uma criança. No entanto, sobre isso, há que se observar que, em termos de vulnerabilidade, só se pode comparar um idoso doente com uma criança doente e não com uma criança sadia. Por outro lado, comparando-se um idoso são com uma criança sã, esta parece ser bem mais vulnerável. Sobre este aspecto, há que se observar que, nesse caso, o grau de vulnerabilidade aumenta na medida em que a criança é mais nova e o idoso mais velho, sendo que haveria uma mesma vulnerabilidade, de mais alto grau, tanto no nascimento quanto no momento da morte.
Com efeito, antes mesmo de nascer, a criança já está sujeita a uma exclusão absoluta, que é aquela que se dá quando da ocorrência de um aborto. Particularmente, o aborto não-natural, provocado por uma mãe que, por motivos de desejo (não-desejo) ou de necessidade, interrompe sua gestação. Para não falar da criança que, seja por um estado de necessidade ou desejo (não-desejo), é abandonada em algum lugar desprotegido, de modo a deixá-la vulnerável de tal forma que possa acarretar sua morte ou algum dano físico e/ou psicológico, em alguns casos, estrutural ou permanente 11.
Após seu nascimento, e até uma idade bastante avançada, o ser humano, e particularmente a criança, se encontrará numa situação de dependência absoluta (de vida e de morte) ao adulto que a acolhe e cuida dela, tomando-a sob sua responsabilidade (mãe, pai ou algum outro responsável).
Uma primeira vulnerabilidade característica da criança é derivada da fragilidade física em relação ao mundo externo em geral e às pessoas que a cercam, sobretudo os adultos que cuidam diretamente dela. Em função disso, a criança estará potencialmente exposta a toda forma de violência. No entanto, sobre isso, há que se observar tanto a violência extrema relativa a maus-tratos, agressão física, espancamento, quanto uma “violência de baixo teor”, tão comum à forma como os adultos têm tratado a criança na história, mas, também à forma como têm tratado até hoje 12.
Consideramos “violência de baixo teor” as mais diferentes modalidades de agressões, muitas vezes não tidas como tal, caracterizadas pela “palmada”, o “beliscão”, a fala agressiva e raivosa e não apenas firme e assertiva, entre outras práticas. Mas, ainda, o próprio uso do castigo, também em diversas modalidades, cuja aplicação implica o uso força física superior do adulto sobre a criança que, mais frágil e mais fraca, não pode deixar de se sujeitar.
Sobre este aspecto, é importante considerar que, para a criança, e particularmente para a criança pequena, os pais constituem-se numa das principais fontes do que é considerado como verdade. Logo tudo o que eles disserem ou fizerem, mesmo quando contrário ou maléfico à criança, parecerá a esta como algo correto, verdadeiro e necessário. Segue que quando os pais utilizam-se da violência para com a criança, esta tenderá a considerá-la como uma forma razoável, correta e necessária de resolver suas divergências para com os outros, passando a utilizá-la sempre que achar necessário, desde que o outro em questão não corresponda ao seu desejo e que seja alguém mais fraco fisicamente.
Em nosso modo de ver, esta se constitui numa conseqüência lógica e natural do cuidado e da educação da criança que se realiza por meio do castigo e/ou da agressão.  Entendimento esse que é corroborado por Bruno Bettelheim, para quem “o que as crianças aprendem com o castigo é que o poder faz a justiça. Quando forem grandes e fortes o suficiente, tentarão se compensar; assim, muitas crianças punem os pais, agindo de maneira a desgostá-los” 13.
Por outro lado, conforme o desenvolvimento psíquico dessa criança vai se realizando, bem como a criança vai tomando conhecimento do mundo à sua volta, construindo algumas de suas concepções acerca do mesmo, quando os pais se utilizam da violência, sem uma consideração de seu desejo e de sua razão, não podendo se contrapor à força maior do adulto, a criança tenderá a se render. No entanto, tal rendição não significará uma concordância da criança em relação à razão dos pais. Ao contrário, pois enquanto estes podem conseguir fazer com que a criança os obedeça, no momento em que se utilizam da violência, no longo prazo, a tendência é que se desenvolva um afastamento íntimo da criança em relação aos pais.
Nesse caso, a criança tenderá a se ressentir em função de seu desejo e sua razão não serem considerados, mesmo quando negados. Nesse caso, outro aprendizado que a criança obtém dessa circunstância é que nem sempre a razão do outro precisará ser considerada. Principalmente pelo lado que possui a força.

“(…) a maioria das pessoas precisa sentir que suas opiniões receberam total atenção antes de se mostrarem dispostas a querer ou ser capazes de considerar quaisquer opiniões fervorosamente opostas que lhes são apresentadas. É necessário ter uma segurança interior considerável para ser capaz de levar em conta opiniões contrárias às nossas, uma segurança que falta às crianças de todas as idades. Mas torna-se muito mais fácil, se sentirmos que a outra pessoa está disposta a esforçar-se para entender nossas razões e levá-las (e, com elas, a nós) em conta seriamente – ai estaremos abertos a outros argumentos e talvez até mesmo dispostos a aceitá-los ” 14.


Essa desconsideração da razão da criança se torna ainda mais problemática quando são os pais que, muitas vezes, primeiro desconsideram as próprias regras que eles mesmos estabelecem. Seja porque discordam entre si acerca da forma correta de proceder para com a criança e para com a vida, seja por não serem coerentes para consigo mesmos, procedendo ora de uma forma, ora de outra, emitindo sinais contrários para a criança.
No que diz respeito ao castigo, consideramos que este se constitui num ato de violência, de todo semelhante à agressão física, uma vez que, por meio daquele, está se obrigando a criança a fazer ou não fazer algo, mediante o uso da força física. E, se a criança se recusar a obedecer, conforme o caso, esta poderá apanhar ou ser obrigada a obedecer, mediante a força. Devido a isso, o que se disse acerca da violência em geral pode ser estendido ao castigo.
Para os que consideram razoável, não o uso de uma violência indiscriminada, mas o uso de uma “violência de baixo teor” (isto é, a palmada, o beliscão, ou algo semelhante), deve-se considerar, em primeiro lugar, o quanto é difícil se graduar esta violência. Particularmente, em função da marca de violência histórica que permeia as relações sócio-familiares, não apenas no Brasil, mas também em grande parte do mundo, em função do poder quase absoluto dos pais para com os filhos, bem como de uma “dominação masculina” 15 que a caracteriza. Além disso, deve-se considerar, também, que quando se utiliza de uma violência, mesmo que “de baixo teor”, o recado é o mesmo: a legitimação do uso da violência nas relações interpessoais.
Ademais, quando se utiliza da violência como uma forma de educar, além da legitimação dessa violência, pode ocorrer de a criança tanto não gostar que esta violência seja dirigida a ela, porque ninguém gosta de ser objeto da agressão alheia 16, quanto, justamente por acreditar que os pais ou aqueles que tratam dela se constituem numa das principais fontes do que seja considerado como verdade, a acreditar que essa violência é correta e necessária, desenvolver uma baixa auto-estima, além de uma divisão em relação a seus sentimentos para com seus pais. E, por extensão, para as demais relações, na medida em que os pais se constituem no primeiro objeto e modelo de amor de toda criança 17.
Sobre este aspecto, há que se observar que a criança só pode acabar por amar e/ou odiar seus pais, pois, ao contrário de outras relações que estabelecemos durante a vida, dada a condição de vulnerabilidade da criança, esta não possui escolha. Mas, mais do que isso, a idéia de que o amor dos pais a ela (a criança) não é incondicional, mas condicionado a um suposto bom comportamento, decorre também, na imaginação infantil, a crença numa possibilidade de perda, ou abandono, dos próprios pais. Situação esta que, de resto, já fora vivenciada quando da primeira vez em que a mãe que primeiro a abrigou, a abandonou por um instante, sem que a criança, na sua ignorância soubesse que iria voltar.
A possibilidade da perda de seus pais, por sua vez, representa para a criança uma possibilidade de perda de sua própria vida. A repetição recorrente dessa experiência terá repercussões para todo e qualquer relacionamento que a criança estabelecerá no futuro, sobretudo no que diz respeito à relação amorosa propriamente dita. É por isso que, muitas vezes, continuamos a ter essa mesma sensação quando do término de algum relacionamento amoroso 18.
É na infância que aprendemos a amar. Com efeito, em relação ao amor, parece-nos que, de Platão a Heidegger, passando por uma série de outros autores, foi Freud e, um pouco depois, e de outra forma, Heidegger quem mais chegou perto de uma possível definição 19. É isso o que observamos a partir de uma leitura da obra destes autores como um todo que, apesar de não terem oferecido uma definição explícita, indicam que o amor constitui-se num “cuidado” [Heidegger] para com o “outro” a quem desejamos o “bem”. “Bem” este que se constitui num desejo de que os desejos e as necessidades deste sejam satisfeitos. Este desejo se torna tanto maior quanto mais próximo estamos deste outro. Por outro lado, é tanto maior quanto mais essa aproximação nos faz lembrar nosso primeiro objeto de amor que são nossos pais, ou um dentre estes (ou os pais que nós idealizamos) que, por sua vez, dedicaram esse cuidado para conosco.
O amor, portanto, pode ser considerado como tendo sua origem, justamente, no reconhecimento da criança do cuidado que os pais (ou os que cuidaram dela na mais tenra infância) tiveram para com ela, desde o seu nascimento. Por isso, a violência (sob todas as formas), o descuido e o abuso 20 em relação ao cuidado que se tem na relação com a criança em seus primeiros anos de vida (sobretudo de 0 a 6 ou 8 anos), é imprescindível para o desenvolvimento em geral, bem como para o desenvolvimento de sua capacidade de amar.
A tudo o que já foi observado deve-se acrescentar mais uma das vulnerabilidades intrínsecas que caracterizam o ser da criança. Este é o desconhecimento acerca de praticamente todas as coisas. Sobre este aspecto, há que se observar a necessidade da criança, assim como o ser humano em geral, possuir um mínimo de determinadas certezas, mesmo que incorretas ou não verdadeiras, de modo a poder guiar a sua ação prática na vida em geral e, particularmente, no que diz respeito a determinadas interrogações acerca da realidade.
O problema é que, se de início, a criança tudo ignora, de outro lado, conforme vai crescendo e se desenvolvendo, não pode permanecer na ignorância. Desse modo, pode-se dizer, em analogia com o conceito de “conhecimento possível” de Jürgen Habermas 21, mas num sentido inverso deste, que existiria uma espécie de “ignorância possível” como um limite da ignorância e do desconhecimento com que o ser humano, e a criança em particular, pode conviver de modo a saber como agir em sua vida prática, bem como a aliviar suas ansiedades e angústias em relação à mesma.
Portanto, devido a uma necessidade da criança de formar um juízo acerca das coisas do mundo, de como agir, necessitando, para isso, de saber o que é certo e o que é errado, paralelo a uma incapacidade de realizar um raciocínio lógico desenvolvido, bem como de utilizar-se deste para a compreensão de noções que não podem ser totalmente formalizadas, e de outro lado, tendo os pais como principal fonte de saber e de referência quanto ao que é considerado como verdade, a criança acabará por acreditar em tudo o que estes dizem.
Além disso, tanto porque seus pais muitas vezes se contradizem, em seus atos e em palavras, bem como porque estes não podem fornecer todos os elementos para que a criança possa tomar conhecimento de uma realidade que, de resto deve e só pode ser construída por ela mesma, esta acabará por preencher as lacunas existentes por meio do desenvolvimento de um pensamento mágico 22.
Considerando essa forma “mágica” de pensar, típica da criança, decorre que, inicialmente esta possui uma grande dificuldade, senão uma total impossibilidade de argumentar e, reciprocamente, de ouvir e entender qualquer argumentação, nos termos de uma argumentação lógica ou quase-lógica 23. Por isso, também, pelo menos antes da criança completar seis anos de idade, a argumentação para com a criança não pode se realizar sob os mesmos princípios lógicos ou quase-lógicos da argumentação entre adultos. Ao contrário, deve-se realizar tendo em vista um convencimento e uma persuasão eficaz para a criança e não para o adulto. Desse modo, pouco importa que o adulto, ao invés de uma lógica, se utilize, algumas vezes, de um pensamento mágico. É por isso que os contos de fadas parecem-se realistas e verdadeiros para as crianças 24.
Além da fragilidade física e de uma ignorância acerca da maior parte das coisas relativas ao mundo que a cerca, outro fator que contribui para a condição intrinsecamente vulnerável da criança no âmbito da família é a sua fragilidade psicológica.  Nesse sentido, deve-se considerar que um fato que para um adulto pode parecer normal e sem conseqüências, passando até despercebido, para uma criança pode parecer traumático. E, desse modo, até porque “todo ser vivo é eterno infante” 25, tal trauma pode se tornar motivo do desenvolvimento de uma neurose, com implicações para o futuro da criança, podendo transformá-la num adulto com uma vulnerabilidade intrínseca (psicológica) dificultando sobremaneira sua vinculação ao ambiente sócio-familiar, bem como em outras esferas do relacionamento social 26.
Outro aspecto a se observar é que, ao contrário do adulto, a criança não pode, por ela mesma, ou por um representante legítimo de sua causa e de suas razões, agir politicamente em prol de seus interesses, com vistas à criação de leis e práticas públicas que as favoreçam. Desse modo, pode-se dizer, de certa maneira, que a criança se encontra completamente desvinculada no que diz respeito ao âmbito da política, onde, justamente, em última instância, é onde e como são encaminhadas todas as questões que dizem respeito às relações entre os homens, inclusive destes com as crianças e particularmente com os seus filhos. No entanto, isso se torna mais importante quando se verifica o nível de poder que os pais possuem em relação ao cuidado e à educação dos filhos, questão esta considerada geralmente como de foro privado e não público.
Mas os problemas decorrentes de uma desvinculação da criança no âmbito da política não se esgotam na relação pais-filhos. Afinal, tal como os adultos, até mesmo num maior grau, dada a vulnerabilidade intrínseca da criança, esta também sofre as mesmas conseqüências quando da aplicação de uma política econômica e de desenvolvimento social excludente, concentrada e desigual, particularmente se esta criança pertence a uma família da classe média ou, sobretudo da classe trabalhadora. Ou, nem isso, excluída até mesmo do mercado de trabalho, como lúmpen-proletariado permanente.
Tais circunstâncias acarretam problemas diretos para as suas condições materiais, mas, também, para as suas condições espirituais e psicológicas, na medida em que afeta também seus pais (ou os que cuidam dela), dificultando que estes possam lhe dar um melhor acolhimento, dedicar mais tempo para a ela, para não dizer de estar em condições espirituais e psicológicas condizentes para a prática de um cuidado e um acolhimento qualitativo.
Sobre este aspecto, é importante observar a luta que foi a aprovação de leis como a que dá direito a uma licença-maternidade (e também à licença-paternidade), bem como a da redução da jornada de trabalho 27 (ora em curso) que, em tese, consiste numa forma de diminuir a exploração da força de trabalho de uma maneira geral, mas, também, em aumentar o número de horas que o trabalhador pode se dedicar a si mesmo e não ao lucro do capitalista. Portanto, ao lazer e à dedicação de sua prole.
O mesmo pode ser dito em relação a uma política de desenvolvimento que não seja sustentável. Com efeito, a prática de uma economia insustentável do ponto de vista ecológico, que compromete o meio ambiente e as gerações futuras prejudica, sobretudo, as crianças e os mais jovens. Afinal, como observou Keynes, tempos atrás, em relação ao caráter depredador bem como insustentável do ponto de vista econômico, “no longo prazo, todos nós [os adultos] estaremos mortos”.
É claro que se é verdade que, em função de todos os fatores supramencionados, a criança é um dos mais vulneráveis dos seres, é verdade também que sua vulnerabilidade tenderá a variar em função da forma como especificamente ela será tratada, em primeiro lugar, pelos seus pais, mas, também, pela própria sociedade como um todo. Nesse sentido, o grau de vulnerabilidade estrutural da criança, decorrente de uma fragilidade físico-psíquico-social intrínseca, tenderá a variar em função de determinadas condições históricas.
Se a criança pode ser considerada como um ser vulnerável em si mesmo (o mais vulnerável dos seres), é verdade que esta vulnerabilidade é bem menor hoje em dia do que nos tempos da sociedade pré-industrial, quando as crianças eram muito menos acolhidas, sendo, em muitos casos, entregue a “amas-de-leite”, quando, particularmente, não se tinha a mesma idéia que se tem hoje tanto da infância quanto da maternidade 28.
Ademais, deve-se observar, também, a recente evolução, nos últimos vinte ou trinta anos no que diz respeito ao cuidado e à educação dos filhos, no entanto, para um segmento ainda diminuto da sociedade (geralmente os que possuem uma melhor formação, informação, renda, etc.), particularmente no que tange à amamentação, alimentação, entre outros aspectos 29.
No entanto, sobre isso, deve-se observar que embora, em tese, para os pais e/ou aqueles que cuidam e educam as crianças, particularmente no âmbito do ambiente familiar, tenha a intenção de que todas as suas ações visem ao bem da criança, não raro essas ações produzem muitos malefícios à própria criança. Isso se deve, de um lado, a uma ignorância em relação à forma como se constitui a psicologia da criança, e, de outro, a existência de uma neurose dos adultos que teve como causa a forma como estes foram tratados por seus pais. A isso se deve acrescentar a existência histórica de um poder quase absoluto dos pais em relação aos filhos.

3. Relação pais/filhos // adulto/criança: um teste ético

Devido à situação de fragilidade e de vulnerabilidade da criança frente a tudo e a todos, os pais ou o adulto que se relaciona diretamente com aquela, devem impor a si o exercício de uma verdadeira responsabilidade ética. Nesse sentido, se considerarmos que “o exercício do poder revela o homem” 30 e que “o melhor dos homens não é o que exerce sua virtude em relação a si mesmo, mas em relação a um outro, pois esta é a tarefa difícil” 31, pode-se dizer que é na relação com a criança – o mais vulnerável dos seres – que o ser humano passa por um dos seus maiores, senão o maior, dos testes éticos. Pois, quando não se possui o poder, isto é, o poder de dominar, agredir (exercendo um verdadeiro monopólio da violência), comandar, influenciar, etc., bem como o poder de “fazer e desfazer leis”, como possui o adulto, e, sobretudo, os pais, em relação à criança, mas, ao contrário, quando se está sujeito a tudo isso, como muitas vezes parece se encontrar o ser humano face ao poder do Estado, do patrão, de um outro mais poderoso e mais forte, etc, como uma criança frente a um adulto, é fácil ser-se ético. Difícil é quando se tem o poder 32.
Sobre este aspecto, já se observou que educador deve ser educado 33. Com efeito, os pais são os primeiros educadores que temos. Mas quem educa os pais? Não se trata de querer impor a estes que recebam por parte de quem quer que seja uma educação formal acerca de como cuidar de seus filhos. Ao contrário, talvez fosse o caso de sequer impor-se aos filhos a necessidade de uma educação formal 34. Trata-se de propor uma abertura de um debate público acerca do cuidado e da educação para com as crianças. Cuidado esse que, acreditamos, não deve ser de responsabilidade exclusiva dos pais da criança, mas também de toda sociedade. Por isso, o poder dos pais em relação às crianças também deve ser regulado e, em alguns casos, diminuído.
Particularmente no que diz respeito a essa árdua e importante tarefa de cuidar e educar os filhos em seus primeiros e mais importantes anos de vida, regra geral, os pais se preocupam em educar demais e cuidar de menos. Ademais, uma das maiores indagações acerca da possibilidade de ter ou não ter filhos, quase sempre, se refere às possibilidades materiais e raramente às possibilidades psíquicas para tal. Particularmente, a possibilidade de amar saudavelmente a seus filhos, tendo a capacidade de desenvolver toda uma empatia para com a criança, imprescindível para quem cuida da mesma 35.
Sobre esta empatia, considerada por Bruno Betthelheim como “tão importante para a compreensão de um adulto tem de uma criança”, é considerada como “uma tentativa de nos colocarmos no lugar do outro, de maneira que nossos sentimentos nos sugerirão não só suas emoções, mas também seus motivos” 36. Devido a isso,

“quando estamos tentando criar uma resposta empática, devemos entender o outro de dentro, não de fora, como provavelmente faria um observador interessado e até preocupado, na tentativa de compreender os motivos do outro através do seu intelecto” 37.


A criança deve ser acolhida pela família na qual ela se insere e, portanto, é claro, por seus pais. Entendemos tal acolhimento sob a mesma perspectiva que os profissionais da saúde têm definido, e que foi incluída nos princípios do SUS (Sistema Unificado de Saúde), como uma acolhida, sendo esta considerada como uma “aceitação, um dar ouvidos, dar crédito, agasalhar, atender”. Ainda, uma “ação de aproximação, um ‘estar com’ e um ‘estar perto de’, ou seja, uma atitude de inclusão”. Analisando mais pormenorizadamente esse acolhimento, segue que este deve ser considerado como uma “ética no que se refere a um reconhecimento do outro, na atitude de acolhê-lo em suas diferenças, suas dores, suas alegrias, seus modos de viver, sentir e estar na vida” 38.
No entanto, nem sempre, ou poucas vezes, a criança é acolhida integralmente de forma plena. Bruno Bettelheim, em seu trabalho como psicanalista especializado em criança, tratando de crianças de diversas partes do mundo, observou como uma grande quantidade de pais confessou, intimamente, não desejar ter filhos, não estar preparado para tal, ou, ainda, não ter se dado conta do trabalho e da responsabilidade que a condição de paternidade implica 39.
Por isso, dizemos que existe, em graus variados, uma espécie de abandono da criança não-abandonada. Tanto em relação a crianças pertencentes a famílias da classe trabalhadora pobre, cujas condições materiais de existência dificultam sobremaneira a possibilidade de cuidar de seus filhos, quanto, também, em relação a crianças que pertencem às classes médias e altas (dominantes).
Dada esta vulnerabilidade intrínseca relativa à condição existencial da criança, aqueles que cuidam desta última devem se impor uma ética que considere a razão e o desejo da criança, mesmo no caso de ter de negá-la. Tal negação por sua vez, deve-se realizar, ou com uma explicação nos termos da criança (portanto, em alguns casos, uma mistura de pensamento mágico e lógica e, conforme o caso, apenas por meio de um pensamento mágico), ou sem nenhuma explicação, tendo como base a autoridade que os pais (ou aquele que trata da criança) tem sobre os filho, na medida em que este os estime e lhes tenha amor. Não em função de um medo de qualquer ato de violência física ou psíquica.
Há que se observar que, como contra fatos não existem argumentos, a educação se realiza muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Devido a isso, os pais devem procurar agir de acordo com suas palavras. Ou, conforme o caso, exprimir de uma forma coerente para a criança regras que estejam de acordo com sua prática.  É baseado nessa coerência entre “teoria” e prática, palavra e ação, e no fato de serem estimados e amados (isto é, serem reconhecidos pela criança como aqueles que dedicaram e dedicam um cuidado para com a criança), ouvindo ou sendo atenciosos para com a criança em relação a sua razão e ao seu desejo, que os pais devem esperar serem ouvidos e atendidos. Porque “é o desejo de ser amado e considerado pelos outros próximos ou não tão próximos que nos faz agir correto para com estes e não as proibições ” 40.

Notas


* Mestre em História pelo “História Comparada”, com a tese “Marx Poético: linguagem figurada na argumentação marxiana no capital” (2005), professor de História e de Música (violão) escritor. autor da peça teatral “Mãe ou o antiédipo” (2001).
1  Período considerado por Sigmund Freud como sendo de formação psíquica básica do ser humano. Sobre isso, ver FREUD, Sigmund. “Três ensaios sobre a sexualidade infantil”. _________________. (1905) In. Obras Completas de Sigmund Freud. (com comentários e notas de James Strachey, em colaboração com Ana Freud). Volume XII Tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1974, pp. 122-252.
2 CASTEL, Robert, op cit. Castel, inclusive, não se utiliza do conceito de exclusão, por considerá-lo estático, substituindo-o por “vulnerabilidade”, que segundo este autor, pretende ser dinâmico. Além do fato de que, segundo Castel, não se pode considerar ninguém numa dada formação social como totalmente excluído. Optamos por utilizar o conceito de vulnerabilidade, mantendo, no entanto, à menção ao conceito de exclusão, dada a grande visibilidade deste último, bem como pelo fato de acreditarmos que se possa trabalhar com este de forma dinâmica, bem como pelo fato de que, ainda que ninguém ou quase ninguém possa ser considerado como totalmente excluído, acreditamos que a exclusão se constitui num fato. CASTEL, op cit, p 569.
3  Apud ESCOREL, Sarah. Vivendo de teimosos: moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro. In: BURSZTYN, Marcel (org.) No meio da rua: nômades, excluídos e viradores. Rio de Janeiro: Garamond, 2000. p. 139-171. p. 142.
4  ESCOREL, ibid.
5  ESCOREL, ibid.
6  ESCOREL, op cit, p. 144.
7  Ibid.
8  Ibid.
9  Sobre a dificuldade de integração do negro no mercado de trabalho quando da abolição do trabalho escravo no Brasil ver FERNANDES, Florestan. “A integração do negro na sociedade de classes”. São Paulo, Edusp. 1964.
10  Sobre isso, deve-se observar como o recente desenvolvimento da “indústria da reciclagem” tem incluído (ou vinculado sem incluir) de forma excludente diversos “sobreviventes de rua” que realizam o trabalho catar latinhas, papel, enfim, toda uma série de materiais reciclados. Isso se constitui numa exploração de alto grau que a indústria da ecologia como um todo (isto é, os capitalistas deste setor) agradece.
11  Considerando a necessidade de se defender um ser indefeso como o feto, depois a criança, que, tanto quanto outro, ou mais, possui o direito à vida, direito este que, de resto, constitui-se num direito fundamental do ser humano, pode-se dizer aborto deveria ser proibido em todo o mundo, como, aliás, é estabelecido pela legislação brasileira. Sobre isso, consideramos que até mesmo em caso de estupro, particularmente quando não há risco para a vida da mãe, aborto não apenas deve ser evitado como proibido. Salvo no caso em que a lei prescreve, qual seja: no caso de o feto ou criança ser anencéfala. No entanto, consideramos também que, a sociedade deveria não deixar apenas para os pais, e muito menos apenas para a mãe, a tarefa de cuidar da criança que está por nascer, aparando de toda e qualquer forma todas as crianças da sociedade. No entanto, também sobre este aspecto, creio que a sociedade deveria abrir um debate em torno destas questões. Do aborto, mas combinado com o problema do amparo à criança, não de uma forma apenas assistencialista, bem como da criança em geral.
12  Sobre uma história da violência contra a criança, sobretudo no Brasil, ver GONÇALVES, Hebe Signorini. “Infância e violência no Brasil”. Rio de Janeiro, Nau, 2003.  PRIORI, Mary Del. (org) “História da criança no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1992; (org) “História das crianças no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1999. (org) “História das mulheres no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1997. São diversos os relatos de violências físicas contra as crianças na atualidade que o “jornalismo policial” explora quase todos os dias. Quanto a essa “violência de baixo teor”, deve-se observar a existência de leis proibindo o emprego da punição corporal, em todas as suas modalidades, na Suécia (1979), Finlândia (1983), Noruega (1987) e Áustria (1989). Isso pode ser considerado tanto um sintoma de um avanço em direção a uma redução da violência a que a criança está sujeita nestes países quanto um sintoma de sua existência (sobretudo antes da aplicação de tais leis) de modo a necessitar das mesmas. Há poucos dias, na Nova Zelândia, uma lei que proibia a prática de violência contra a criança foi revogada, por plebiscito. Atualmente, o governo da Inglaterra está pretendendo introduzir na educação infantil “aulas contra a violência doméstica”, em função de um grande número de casos de violência doméstica contra crianças e mulheres nos lares ingleses. Cerca de um milhão de britânicos enfrentam pelo menos um episódio de violência doméstica por ano. 750 mil crianças sofrem violência doméstica na Inglaterra. Sobre isso, ver jornal “O Globo”, 26/11/2009. 1º. Caderno, p.37. No Brasil, o Projeto de Lei 2654/2003, de autoria da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) que proíbe o uso da palmada na educação de crianças não apenas não foi aprovado pelo Congresso Nacional como sofreu uma crítica virulenta por parte de programas de rádios populares, bem como de seus ouvintes. Há poucos dias, quando a Lei contra a violência contra a criança foi revogada na Nova Zelândia, uma “pesquisa popular” em uma destas rádios, indagou aos seus ouvintes: “para você, uma palmada educa ou traumatiza?”. O resultado foi: por telefone 41% achando que a palmada traumatiza e 59% achando que educa; e, por Internet, 100% achando que a palmada educa. Rádio Tupi, 1280 KHz, AM, em 24 de agosto de 2009, no programa de  “Francisco Barbosa”, de 10 às 12hs. http://www.tupi.com.br.
13 BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho: pais bons o bastante”. Rio de Janeiro, Campus, 1988, p.95.
14  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para seu filho”, op cit, p. 43.
15  Sobre a dominação de uma “visão masculina dominante” no âmbito das relações interpessoais e, particularmente, no que diz respeito às relações de gênero, com reflexos na educação da criança, em função dos aspectos relativos ao gênero que permeia essa educação, isto é, no estabelecimento da diferenciação menino/menina, ver BOURDIEU, Pierre. “A dominação masculina”. Rio de Janeiro, Bertand do Brasil, 1999.
16  Salvo no caso do desenvolvimento de uma personalidade sado-masoquista que, de resto, constitui-se como uma reação a uma violência sofrida na infância. Sobre isso ver FREUD, Sigmund. “Cinco lições de psicanálise”. In “Os Pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 1-31.
17  “A primeira escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criança e logo depois especialmente aos genitores. (…) A criança toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos”. FREUD, Sigmund. “Cinco lições”, op cit, p. 30.
18  FREUD, Sigmund. “Cinco Lições”, op cit, pp. 29-30; e BETTELHEIM, op cit, p. 101.
19  PLATÃO, “O banquete”. In “Diálogos”. Tradução: Jorgh Palhikat. Rio de Janeiro, Ediouro, s.d. DESCARTES, René. “As paixões da alma”. São Paulo, DPL, 2004. ver também. MILLAN, Betty. “O que é amor”. São Paulo, Brasiliense, 1981; KONDER, Leandro. “Sobre o amor”. Rio de Janeiro, Boitempo, s.d; QUEIROZ, Álvaro. “O desejo na filosofia: pesquisa psicológica” (on line) Maceió, ano 2, n 1, julho de 2008, disponível em http://www.pesquisapsicologia.pro.br.; FREUD, Sigmund. “Sobre o narcisismo: uma introdução”.Rio de Janeiro, Imago, 1989; “Três ensaios sobre sexualidade”. Edição Standard de edições brasileiras das obras psicológicas completas. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1972, volume XVIII. HEIDEGGER, Martin. “Ser e tempo”. Petrópolis, Vozes, 2006.
20  Em relação ao cuidado com a criança, chama-se “abuso” uma forma de descuido ou cuidado demasiado que se apresenta sob os mais diferentes procedimentos para com a criança, entre os quais, os mais comuns são: 1) proteção demasiada, impedindo que a criança frequente a escola (frequencia esta que é recomendável que seja o mais cedo possível, até com alguns meses); 2) a sedução sexual implícita (muito comum) ou explícita, em função de um narcisismo dos pais; 3) a falta de uma educação alimentar, com a oferta de guloseimas ou de alimentos não recomendáveis; entre outras. Sobre isso, ver FREUD, Sigmund. “Sobre o narcisismo”, op cit; FREUD, Ana. “Infância normal e patológica: determinantes do desenvolvimento”. Tradução: Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, Zahar, 1971.
21  Considero conhecimento possível como o conhecimento passível de ser adquirido pelo ser humano num dado estágio do pensamento humano em geral e das possibilidades psicológicas de conhecimento HABERMAS, Jurgen. “Conhecimento e interesse”. Tradução: José N. Heck. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
22  Como se sabe, embora as fronteiras entre os ciclos de desenvolvimento da criança não sejam totalmente fixas e nem arbitrárias, havendo uma possibilidade de variação em função de cada uma em particular, considera-se que é a partir do chamado “terceiro ciclo do desenvolvimento da inteligência”, depois dos seis ou sete anos, que a criança torna-se capaz de realizar operações lógico-matemáticas. Paralelamente, ela começa a se utilizar de uma lógica ou uma quase-lógica para argumentar. Sobre isso, ver FERREIRO, Emília. “Atualidades de Jean Piaget”. Tradução: Ernani Rosa. Porto Alegre, Armed, 2001. Quanto ao pensamento mágico, este pode ser considerado como a forma de raciocínio que estabelece conexões necessárias, justamente, entre premissas que não são necessariamente lógicas, mas que são necessariamente ilógicas, embora adequadas para aquele que raciocina desse modo, em função de, por meio de tais premissas, haver uma adequação do seu psiquismo com o que e como se conhece a realidade.
23  Nesse caso, estamos denominando quase-lógica a semi-formalização dos enunciados e premissas que estabelecemos para argumentar, de todo semelhantes às premissas da lógica, mas nunca iguais as desta última. Pois, raciocínio rigoroso e totalmente lógico constitui-se mais numa demonstração do que numa argumentação. Como disse, Aristóteles, “ninguém delibera sobre coisas invariáveis”. “Ética a Nicômaco”. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo, Martin-Claret, 2004, p. 129. Sobre uma definição de argumento quase lógico e a diferença entre demonstração e argumentação ver PERELMAN, Chaim e OLBRECHTS-TYTECA. “Tratado da argumentação: a nova retórica”. São Paulo, Martins Fontes, passim.
24  BETTELHEIM, Bruno. “Psicanálise do conto de fadas”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2007.
25  PESSOA, Fernando. “Quarto/D. Tareja”. In “Mensagem”. Obra Poética, op cit, p. 73.
26  FREUD, Sigmund, “Esboços de psicanálise”, “Os pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 112.
27  No que diz respeito ao tempo que o trabalhador dedica ao trabalho, deve-se acrescentar à jornada de trabalho o tempo de locomoção casa-trabalho, o principal deslocamento realizado pela classe trabalhadora. Por isso, a prática de uma política de transporte coletivo de massa (de preferência público e não-privado) constitui-se numa necessidade imprescindível para a classe trabalhadora e, desse modo, para a maior parte da população. Esse é um dos motivos pelos quais a locomoção por meio do automóvel deveria ser desestimulada. Tanto para melhor o trânsito, dando-se privilégio a um transporte público coletivo, quanto por motivos ecológicos.
28  Sobre a construção social da noção de maternidade, ver BADINTER, Elisabeth.  “O mito do amor materno: um amor conquistado”. Sobre a noção de infância ver “ARIÈS, Philippe. “História social da família e da criança”. Para o caso particular da criança no Brasil, ver PRIORI, Mary Del. (org). “História da criança no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1992.
29  Sobre isso ver o blog da jornalista Telma Torrecilha http://www.educarecuidar.com.
30  BIAS, um dos chamados sábios da Grécia antiga, citado por ARISTÓTELES em “Ética a Nicômaco”. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo, Martin Claret, 2004, p. 105.
31  ARISTÓTELES, op cit, pp. 105-106.
32  Com o que dissemos, não estamos querendo compartilhar da idéia de uma suposta bondade original do ser humano que, por isso mesmo, estaria presente na criança, particularmente quando aquele ainda não fora corrompido pela sociedade, pela maldade, etc. Ao contrário, dentro da tradição freudiana, consideramos a existência tanto de uma maldade quanto de uma bondade (ou de uma capacidade para tal; Eros e Tânatos) que, conforme o meio tenderá a se desenvolver, bem como a se temperar, em parte com o uso da razão, em parte com a própria realidade que se apresentará como um obstáculo à realização do desejo. O que ocorre é que um descuido e um abuso no cuidado para com a criança podem dar uma resolução boa ou má para estas pulsões. Sobre isso, ver ROZA, Luiz Alfredo Garcia. “O mal radical em Freud”. Rio de Janeiro, Zahar, 1979; e MANCEBO, Denise. “Ética em Psicanálise: Freud e Lacan”. Rio de Janeiro Zahar, 1982.
33  MARX, Karl, “Teses sobre Feuerbach”. In “Os pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 51.
34  Sempre que se pensa na hipótese de não se impor à criança uma educação formal, pensa-se que tal iniciativa, fatalmente, fará com que futuramente, quando adulto, a criança não encontrará emprego no mercado de trabalho. Pensa-se, como sempre, sobretudo, na adequação que se considera necessária da educação ao capital que, no fundo, é fonte de inúmeros equívocos a esse respeito. Esquece-se, nesse caso, que o acesso ao mercado de trabalho, para não dizer ao capital mesmo, como proprietário de meios de produção, depende muito mais de um capital cultural e simbólico não apenas escolar, mas, também (e, em alguns casos, mais importante, como é o caso das classes médias altas e dominante) social. Com isso, não queremos defender a necessidade de uma “sociedade sem escolas”, mas sim de uma “sociedade com esta escola que aí está”. Sobre isso ver BOURDIEU, Pierre. “A reprodução: elementos para teoria do sistema de ensino”. Lisboa, Editoral Veja, 1978. ILHICH, Ivan. “Uma sociedade sem escola”. Rio de Janeiro, Zahar, 1978. Ver também a interessante biografia do crítico de cinema canadense que retirou seu filho da escola aos 15 anos, com a contrapartida de que ele assistisse a três filmes por semana, escolhido pelo pai, debatendo com este após assistir o filme. Hoje, o filho desse crítico de cinema tem 24 anos e é ator e escritor. GILMOUR. David. “O clube do filme”. Tradução: Luciano Trigo. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca. 2009.
35  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 35. Nossa idéia de educação e, sobretudo, de cuidado com a criança é baseada numa reflexão a partir das obras de Freud aqui mencionadas, na razão argumentativa de Habermas e Perelman, também mencionados e na obra de Bruno Bettelhem. Para uma visão diferente da nossa e que acreditamos ser equivocada, ver. ZAGURY, Tânia. “O direito dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise”. 11ª. Edição. Record, Rio de Janeiro, 2004.  Baseada numa idéia (equivocada) de que a psicologia moderna teria retirado dos pais a capacidade de dizer “não” aos filhos, ZAGURY chega a se referir aos pais como “uma classe dominada”, o que além de inverter a relação, como se pais (adultos) é que fossem vulneráveis (ZAGURY não usa esse termo), utiliza-se, também, de modo equivocado do conceito de classe. Pois, definitivamente, ser pai não indica nenhuma condição de classe, nem em termos metafóricos.
36  BETTELHEIM, Bruno, “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 75.
37  BETTELHEIM, Bruno, ibid.
38  “Acolhimento nas práticas de produção de saúde”. 2ª. Edição, Série B. Textos básicos de saúde, Brasília, Distrito Federal, 2006. In http://www.saude.rr.gov.br/humanizasus/acolhimento_nas_praticas.pdf
39  “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 5.
40  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 99.

LOPES, Ricardo. O abandono da criança não abandonada: uma análise da vulnerabilidade da criança no âmbito familiar. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº20, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]


Share this:
email O abandono da criança não abandonada su O abandono da criança não abandonada digg O abandono da criança não abandonada fb O abandono da criança não abandonada twitter O abandono da criança não abandonada

tt twitter O abandono da criança não abandonada Tweet This Post

{ 0 comments }

Se acaso

by Lou Mello 18 September 2014 PsicoLougia de Botequim

Lupicínio Rodrigues   “Eu não sei se o que trago no peito/ É ciúme, despeito, amizade ou horror;/ Eu só sei é que quando eu a vejo,/ Me dá um desejo de morte ou de dor”: Lupicínio Rodriques   Certamente não publicarei esse texto no blog. O pior de todos os erros seria admitir minha […]

Comments Read the full article →

Steve Jobs não deixava os filhos mexerem em iPads e iPhones

by Lou Mello 11 September 2014 Clonagens

Nick Bilton Marcio Jose Sanchez/AP Assim como outros executivos do ramo da tecnologia, Steve Jobs limitava ao máximo o tempo que seus filhos podiam mexer em iPads e iPhones Quando Steve Jobs dirigia a Apple ele era conhecido por ligar para jornalistas para lhes dar um tapinha nas costas por um artigo recente ou, com […]

Comments Read the full article →

Saltimbancos na Gruta

by Lou Mello 5 September 2014 Confissões de Lou

Não tenho conseguido tempo para escrever, nos últimos tempos, como gostaria. Muitas ideias e pensamentos passam por minha mente sem que possa dar-lhes asas. Ando absorvido com os desdobramentos advindos do falecimento de minha sogra, a deterioração da saúde de minha mãe, nova mudança de residência e outras atividades e preocupações menores. Além disso, continuo […]

Comments Read the full article →

Papai Nobel

by Lou Mello 16 August 2014 Pentecolstalismo Sério

A cada dia, nesse nosso mundo globalizado e todo new moderninho, novas doenças mentais ganham espaço. Às vezes, nem são novas, apenas receberam um banho de loja, um novo nome mais chique e, logicamente, algum psicanalista francês, suíço ou franco-suíço para assumir sua autoria, digo, descoberta com a qual acabará ganhando um cheque polpudo de […]

Comments Read the full article →

O Tigre e o menino

by Lou Mello 4 August 2014 Educação de Raiz

O tigre e o menino[/caption] Resolvi escrever esse texto a partir de um comentário que fiz no perfil Facebook de nossa querida amiga Christhiane Rodrigues onde ela menciona o infeliz acontecimento onde um menino acabou perdendo um braço ao tentar brincar com um tigre, no zoológico de Cascavel – Paraná. Eis meu comentário, ampliado aqui: […]

Comments Read the full article →

Um Templo de Salomão aqui?

by Lou Mello 3 August 2014 alfinetadazem

  Para um cara que vive em uma Gruta, onde, entre outras atividades, exercita sua religião simplória e humildemente, a notícia de um templo de Salomão no Brás, em São Paulo, Brasil, América do Sul, é auspiciosa. Afinal, desde o tempo em que iniciei meus estudos em teologia, sonhava em conhecê-lo. Claro, meu sonho era […]

Comments Read the full article →

Dedé e Lou – 36 anos

by Lou Mello 3 August 2014 Homenagem

    just in love 2014 Share this: Tweet This Post

Comments Read the full article →