As três respostas

by Lou Mello on 7 de December de 2014 · Comments

in Sapiência de Gruta

A narração dessa história está contida no livro
Para Viver em Paz – Thich Nhât Hanh
tradução de Odete Lara


 120714 1850 Astrsrespos1 As três respostas

Para terminar esta carta, eu gostaria de contar uma história narrada por Tolstoy, de que você e nossos amigos na Escola irão gostar. É a história das três perguntas do imperador. Ele poderia continuar a reinar satisfeito, sem o risco de cometer nenhuma falha, somente se conseguisse respostas para as seguintes perguntas:

  1. Qual o tempo mais oportuno para se fazer cada coisa?
  2. Quais as pessoas mais importantes com quem trabalhar?
  3. Qual a coisa mais importante a ser feita?

O imperador publicou uma declaração, dizendo dar um alto prêmio àquele que fosse, capaz de responder às perguntas. Inúmeras pessoas se dirigiram ao palácio oferecendo diferentes respostas.

Em resposta à primeira pergunta, alguém aconselhou o imperador a fazer um planejamento completo, dedicando todas as horas, dias, meses e ano a certas tarefas constantes da programação elaborada e observá-lo ao pé da letra. Só assim teria ele possibilidade de fazer cada coisa no tempo certo. Uma segunda pessoa respondeu que seria impossível planejar com antecedência, que deveria deixar todo e qualquer divertimento vão de lado e permanecer atento a tudo, a fim de saber o que fazer na hora certa. Uma terceira disse que o imperador jamais poderia, por si próprio, ter a previsão e competência necessárias para decidir quando fazer cada coisa, e que o que ele realmente precisava era constituir um conselho de sábios e agir de acordo com o que fosse determinado por estes. Uma quarta, enfim, disse que certos assuntos requeriam providências imediatas, não podendo assim esperar por de- cisão de conselho, mas se o imperador quisesse saber dos acontecimentos com antecedência, deveria consultar mágicos e adivinhos.

 As respostas à segunda pergunta também não foram satisfatórias. Uma pessoa disse que o imperador deveria depositar toda sua confiança nos administradores, outra, nos padres e monges, outra, nos médicos, e, outras ainda, nos guerreiros.

 A terceira pergunta trouxe uma variedade similar de respostas. Alguns disseram que a coisa mais importante a fazer era a ciência. Outros falaram em religião. Outros ainda achavam que a coisa mais importante era a arte bélica.

 Como nenhuma das respostas satisfez ao imperador, nenhum prêmio foi concedido.

 Após refletir por várias noites, o imperador decidiu sair à procura de um eremita que vivia na montanha, e que diziam ser um homem iluminado. Sabia-se que ele jamais deixara a montanha e não recebia ricos nem poderosos, apenas os pobres. Ainda assim, o imperador decidiu ir ao seu encontro para fazer-lhe as três perguntas. Disfarçado de camponês, o imperador ordenou aos seus criados que o esperassem ao pé da montanha enquanto ele subia sozinho.

 Ao chegar ao lugar em que vivia o eremita, o imperador viu-o lavrando a terra da horta em frente à sua pequena cabana. Ao avistar o forasteiro, o eremita acenou-lhe com a cabeça, continuando a capinar. O trabalho era bastante duro para um homem daquela idade, e toda vez que enterrava a enxada na terra, para revolvê-la, um profundo suspiro acompanhava seu movimento.

 Acercando-se dele, o imperador falou: “Vim até aqui para pedir sua ajuda. Quero que me responda três perguntas:

Qual o tempo mais oportuno para se fazer cada coisa?

Quais as pessoas mais importantes com quem trabalhar?

Qual a coisa mais importante a ser feita?”

O eremita ouviu-o atentamente mas não respondeu. Deu uma palmadinha amistosa no ombro do forasteiro e continuou seu trabalho. O imperador então disse: “Você deve estar cansado, deixe-me dar uma mão no seu trabalho”. Agradecendo, o eremita passou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar.

Depois de ter cavado dois canteiros, o imperador parou e, voltando-se para o eremita, repetiu suas três perguntas. Ao invés de responder, o eremita levantou-se e apontando para a enxada disse: “Por que não descansa agora? Eu posso retomar o meu trabalho de novo”. Mas o imperador não lhe passou a enxada e continuou a cavar. Assim se passaram as horas, até que o sol começou a se esconder atrás da montanha. O imperador colocou a enxada de lado e falou ao eremita: “Eu vim até aqui para ver se você seria capaz de responder minhas três perguntas. Mas se não puder respondê-las, por favor, me diga, para assim eu voltar para casa”.

 Levantando a cabeça, o eremita perguntou: “Está ouvindo os passos de alguém correndo ali adiante?” O imperador voltou a cabeça e, de repente, à frente de ambos, surgiu de dentro do mato um homem com longa barba branca. Ofegante, o homem tentava cobrir com as mãos o sangue que escorria do ferimento no estômago, avançando em direção ao imperador, antes de tombar ao chão, inconsciente. Abrindo a camisa do homem, o imperador e o eremita viram que ele havia recebido um corte profundo. O imperador limpou a ferida, usando sua própria camisa para atá-la, mas o sangue empapou-a inteira depois de poucos mi nutos. O imperador então enxaguou a camisa, enfaixando a ferida pela segunda vez, assim continuando, até parar de sangrar.

Ao recobrar os sentidos, o homem pediu água. O imperador foi até o rio e trouxe-lhe uma cumbuca de água fresca. Nesse meio tempo a noite já havia descido e o frio se fazia sentir. O eremita ajudou o imperador a carregar o homem até a cabana onde o deitaram sobre a cama. O homem fechou os olhos e adormeceu.

Esgotado por ter passado o dia escalando a montanha e capinando a terra, o imperador encostou-se contra a porta de entrada e adormeceu. Quando despertou, o dia já estava claro. Por um momento, não se lembrava onde estava e para que tinha ido até ali. Esfregou os olhos e viu o homem ferido que, deitado, também olhava confuso ao redor. Ao ver o impera- dor, o homem fixou-o, murmurando com voz fraca:

“Perdoe-me, por favor”.

“O que fez você para que eu o perdoasse?” – respondeu o imperador.

“Vossa Majestade não me conhece mas eu o conheço. Eu era seu inimigo declarado e tinha jurado me vingar por meu irmão ter sido morto na guerra e por minhas propriedades terem sido confiscadas. Quando soube que V.M. vinha sozinho até aqui, resolvi surpreendê-lo no seu caminho de volta, e matá-lo. Como não consegui vê-lo após ter ficado escondido por horas a fio, decidi sair à sua procura. Mas ao invés de encontrar V.M., dei com seus criados que me reconheceram e me feriram. Felizmente consegui escapar e correr até aqui. Se eu não o tivesse encontrado, estaria certamente morto agora. Eu tencionava matá-lo e V.M. salvou a minha vida. Não tenho palavras para expressar o quanto estou envergonhado e agradecido. Se eu conseguir me recuperar, juro ser seu servo pelo resto de minha vida e o mesmo ordenarei aos meus filhos e netos. Por favor, dê-me o seu perdão”.

 O imperador sentiu uma extraordinária satisfação por ver que havia se reconciliado com um ex-inimigo, tão facilmente. Não só lhe perdoou como também  prometeu devolver-lhe todas as propriedades e mandar seu próprio médico e criados tratarem-no até que se recuperasse totalmente. Depois de ordenar aos criados que acompanhassem o homem até seu lar, o imperador voltou a ver o eremita. Queria, antes de retornar ao palácio, repetir suas três perguntas, uma última vez.

Encontrou o eremita agachado, semeando a terra que haviam preparado no dia anterior. Este, após ouvir novamente as perguntas do imperador, disse:

“Mas suas perguntas já foram respondidas”.

“Como assim?” – indagou o imperador intrigado”.

 “Ontem, se V.M. não se tivesse compadecido de mim e me ajudado a cavar a terra, teria sido assassinado por aquele homem ao voltar para casa. Portanto, o tempo mais oportuno foi o tempo em que esteve cavando os canteiros, a pessoa mais importante fui eu, e a coisa mais importante a fazer foi me ajudar. Mais tarde, quando o homem ferido apareceu, o tempo mais oportuno foi o tempo em que esteve tratando de seu ferimento, pois sem seu socorro ele teria morrido e V.M. teria perdido a chance de reconciliar-se com ele. Da mesma forma, ele foi a pessoa mais importante, e a coisa mais importante foi cuidar de seu ferimento. Lembre-se de que só existe um tempo importante e esse tempo é o agora. O presente é o único tempo sobre o qual temos domínio. A pessoa mais importante é aquela que está à sua frente. E a coisa mais importante é fazer essa pessoa feliz”.

Quang, a história de Tolstoy parece tirada das escrituras budistas. Nós falamos em serviço social, serviço pela humanidade, serviço para aqueles que estão distantes da gente – mas, muito frequentemente, esquecemos que em primeiro lugar devemos viver pelas pessoas que estão ao nosso redor. Se você não pode ajudar sua esposa, seu filho, como vai ajudar a sociedade? Se você não é capaz de fazer seu filho feliz, como será capaz de fazer os outros felizes? Se nós todos que servimos na escola da Juventude não amarmos e ajudarmos uns aos outros, a quem poderemos amar e ajudar? Estamos trabalhando pelos homens, ou pelo nome da organização?

Serviço social. A palavra “serviço” tem uma amplitude imensa. A palavra “social” também. Retornemos antes de tudo a uma escala mais modesta: nossas famílias, nossos colegas, nossos amigos, ou nossa comunidade. Temos que viver por eles, pois, se não vivermos por eles, por quem mais haveremos de viver?

Tolstoy é um Bodhisattva. Mas terá o imperador sido capaz de ver o sentido e direção da vida? Como podemos viver o presente, viver o aqui e agora com as pessoas que estão à nossa volta, ajudando-as a diminuir seus sofrimentos e tornando-as felizes? Como? A resposta é esta: temos que exercitar a prática de alertar a mente. O princípio dado por Tolstoy parece fácil; mas se quisermos colocá-lo em prática, a fim de encontrar o Caminho de Buda, precisamos fazer uso dos métodos para alertar a mente.

 Quang, escrevi estas linhas para uso dos amigos. Existem muitas pessoas que escrevem sobre essas coisas sem as ter vivido, mas eu anotei as que eu mesmo vivi e experimentei. Espero que elas possam, de algum modo, servir para você e nossos amigos, ao longo do caminho que percorremos: o caminho do retorno.

Thich Nhât Hanh

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120714 0156 Roubaramnos1 Roubaram nossa educação pública de qualidade

 

Então, hoje o recado não vem da padaria.

Participei, nesta tarde, do encontro de fim de ano dos ex-alunos dos Ginásios Vocacionais, escolas estaduais que funcionaram entre a década sessenta e o início dos anos setenta, século passado, sob direção do SEV (Serviço de Ensino Vocacional) e capitaneado pela saudosa Professora Maria Nilde Mascellani, na capital e em cinco cidades do interior de São Paulo. Elas foram brutalmente extintas pela ditadura militar sob a acusação de prática de subversão e a Profª Maria Nilde e várias pessoas foram presas e torturadas nos calabouços do DOPS.

Durante o encontro de hoje, um dos ex-alunos tomou a palavra e declarou ter sofrido brutal violência com o fechamento do ginásio vocacional de Americana, onde ele estudava e, no seu entender, o estado deveria nos recompensar de alguma maneira por essa violência. Tudo o que nós presenciamos em nossos dias naquelas escolas foi um ensino público de inigualável qualidade jamais visto antes e muito menos depois daquela experiência. Talvez aquela ditadura, como a que está se formando nos dias presentes, tivesse horror a uma educação dessa qualidade, sobretudo porque ela exaltava o livre pensar, a participação, a pesquisa, trabalho em grupo e o relacionamento verdadeiramente democrático, considerando tudo isso uma inaceitável “subversão”.

Em minha opinião, a mensagem de nosso colega, na prática, foi: Roubaram nossa única possibilidade real de uma educação pública de qualidade. Todos os alunos que frequentaram e formaram sua base escolar nos Vocacionais, nossos professores, orientadores e funcionários foram vítimas do Regime Militar Ditatorial, que com aqueles atos de violência e desatino nos causaram dano moral e psicológico irreparáveis. Fora o fato de terem privado todas as gerações posteriores de um ensino que poderia tê-las propiciado uma educação de altíssima qualidade, sem custo algum.

Claro que nos caberia indenização em alguma forma. À saída, cruzei como o corajoso ex-aluno do vocacional de Americana e troquei algumas palavras com ele, de concordância, e aproveitei para sublinhar que uma indenização possível e satisfatória seria a devolução dos Ginásios Vocacionais ao povo, até hoje em poder do estado, utilizados para a prática do ensino caótico e ineficiente que proporciona em nossos dias às nossas crianças e nossos jovens.

Anistiaram os políticos cassados, indenizaram as vítimas de tortura e/ou familiares, mas não lembraram de nós, até hoje, tão vítimas quanto, da nefasta ditadura que nos assolou naqueles anos.

Infelizmente a memória curta do povo e, principalmente, dos meios de comunicação não está ajudando nosso povo nos dias atuais, quando aqueles horrores estão nos rondando novamente, via esses cretinos ávidos por implantar mais um regime totalitário em nosso país. Eles não fazem a menor ideia do que os espera e do que estão plantando.

Enfim, ganhei meu brinde no sorteio e, embora tenha tido grande prazer em rever alguns dos meus colegas dos Vocacionais, senti certa tristeza por não ter encontrando com tantos outros que não apareceram. Alguns que até confirmaram presença, inclusive. Pena.

A todos, um beijo em suas carecas e perucas.

morcego 12 150x150 Roubaram nossa educação pública de qualidade

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